Dez Meses
Eu poderia começar falando sobre todos os problemas que já passei desde março, mas eu prefiro dar um passo a frente e seguir meu caminho. Hoje enquanto subia no elevador percebi que a saudade é um sentimento genuíno. Daqueles, que podem competir de igual pra igual com o amor. Quem diria que um sentimento carregado de dor, de ausência, de necessidade, pudesse ser algo tão parecido com outro que é visto sempre como o bonzinho dos sentimentos.
Cheguei no trabalho e a garrafa de agua estava
aberta na bolsa. Que droga! Eu prefiro trazer o almoço de casa, aqui ao redor nunca tem
uma comida confiável. Tem até um sushi mediano que fica num posto de gasolina.
Mas não consigo acreditar que num ambiente tão pequeno desses alguém consiga
manter um mínimo de higiene para preparar peixe.
Hoje a recepcionista atrasou, vou economizar um
bom dia, não sei você, mas não consigo ser igual a Mônica pela manhã. Eu não tenho a menor condição de acordar
sorrindo. Sou daquele grupo de pessoas que evita o mundo até a hora do almoço,
eu diria que ainda estou em processo de despertar. Só acordo após alguns
espirros necessários pra me lembrar que tenho rinite.
Acabei de ver
a árvore de natal ainda montada na praça Portugal e veio um filme na minha cabeça. Um
natal de dois anos atrás mais ou menos onde descemos do carro e fomos tirar fotos na praça
toda iluminada. Daqui da cobertura ainda consigo ver a árvore que vai mudando de
cor a noite.
São vários flashs, eu diria que durante todos
os dias nos últimos dez meses eu sinto a sua ausência. Ela vem na notícia de
nossa série favorita que foi renovada, na quantidade de adoçante que vou colocar
aos pouquinhos e se assemelha ao modo que sua mãe fazia, na rotina de manter uma
dieta e ser completamente infiel a ela. E lamentar todos os dias que não tem
mais roupa que caiba, mas não fazer nada definitivo pra mudar isso.
O computador parece que não quer pegar, eu te
entendo, estou do mesmo jeito. Ontem o alarme de incêndio daqui do prédio tocou
e não tinha a menor possibilidade de descer catorze andares de escada. Fui de
elevador e as pessoas dizendo que se fosse mesmo um incêndio eu iria morrer. E
você acha que de escadas eu iria sobreviver? Era um alarme falso, alguém que
encostou inadvertidamente no painel que aciona incêndio. Uma pena, pois tivemos
que voltar a trabalhar e eu já estava fazendo planos para dormir a tarde
inteira.
Eu comprei um chá de hibisco com rosa silvestre
e amora que você iria odiar. Você nunca foi chegada a chá, igual a mim. É meu novo delírio de consumo, preciso me apegar a coisas fúteis pra ter ocupação na minha mente. Aliás,
quando eu penso em falar sobre você me sinto extremamente egoísta, por que
acabo falando de mim. E de tudo que sou por ser reflexo do que aprendi com
você.
Hoje eu tive a notícia de que o gato da Hortência voltou pra casa, ja tinha uns cinco dias que ele havia desaparecido. Eu fico imaginando se isso pudesse ser com você. Que tivesse sido só uma viagem e que em algum momento você vai pegar seu telefone e ligar pra dizer que voltou.
Dez meses que não falo com você. Que não ouço
sua voz, sua risada, rio das suas piadas, das nossas piadas, dos nossos
encontros, dos rodízios, de reclamar da vida e saber que não estou sozinho.
Sim, a saudade é hoje um complemento do amor, e ainda não conseguiu ser um
sentimento tolerável, ainda não deu espaço para cicatrizar, mas eu te prometo
que vou continuar lutando, não só por mim, mas também por você.


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